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A serigrafia e seu lado experimental

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A serigrafia e seu lado experimental

Os serígrafos e os artistas plásticos que utilizam a técnica da serigrafia para impressão de seus projetos, consideram esta gravura como uma ferramenta de trabalho que permite a impressão de cópias sempre originais. Nela geralmente a tinta escolhida é opaca-fosca ou transparente-fosca pelo domínio que proporciona ao produtor das imagens. A tinta por sua vez é forçada através da seda ou nylon sobre uma superfície em sua maioria plana, o que ocasiona uma versatilidade de resultados, às vezes com as características sutis da aquarela, outras com a densidade e a riqueza de cores da pintura a óleo.

Mas esta experiência só é possível quando o serígrafo é o autor da sua obra, ou seja, obra e artista começam e terminam juntos o processo. O artificie Dionísio Del Santo comprovou isto pelas experiências feitas a partir da década de 70 com materiais tipo grafite, linhas e papel picado mesclados à impressão, os quais trouxeram um novo olhar sobre a técnica tirando-a do lugar comum da reprodutibilidade e dando-lhe um ar artístico e experimental. O mesmo ocorreu com a forma, na qual a matriz espontânea, de curta durabilidade, ofereceu novas possibilidades ao seu trabalho criativo, sendo necessário para isto o cuidado com a carga de tinta utilizada e a pressão exercida sobre a tela com os puxadores de borracha sintética.

E quem foi este artífice Dionísio Del Santo?

Um grande artista plástico capixaba com o qual pude desfrutar de uma convivência familiar e artística em muitos momentos dos quase vinte e três anos que nos conhecemos. Um artista cuja carreira foi permeada de exposições, pesquisas e construções pictóricas, mas que pessoalmente não se ligou a nenhum grupo artístico, mesmo morando no Rio de Janeiro e tendo grande contato com os movimentos artísticos e efervescentes ocorridos na época.

Ao visitarmos o conjunto da sua obra encontramos técnicas como o guache, nanquim, lápis, serigrafia e pintura sobre tela, todas formando composições que trazem um não se quê de lirismo as quais não demonstram as exaustivas horas de trabalho em busca do aprimoramento plástico. Para Dionísio, “a criação” configurava “ideia e execução”, e esta criação finalizava na última pincelada ou impressão a ser dada.

Em quarenta anos de muita pesquisa e produção artística, ele voltou poucas vezes à terra natal. Sendo a última para fazer curadoria e execução de sua retrospectiva que inaugurou o Museu de Arte do Espírito Santo (MAES) em 18 de dezembro de 1998.

E afinal, por que o nome serigrafias pintadas?

Atelier e memórias

Os anos noventa foi um período fértil de ideias, estudos, pesquisas, ateliers e workshops o qual vivemos como muitos artistas capixabas. Naquele momento eu participava do Atelier Isto não é uma Rosa, no qual haviam colegas artistas com produções interessantíssimas.

As minhas experiências na gravura deste período resultaram em formas construídas ou diluídas pela transparência das tintas que se encontravam sobre o suporte como um caos borbulhante! E em muitos momentos o “rodo” era substituído por pincéis largos, às vezes trincha, sobre a tela. A cada impressão a materialidade surgia pelo manuseio da tinta e não mais pelo acréscimo de materiais. Daí denominá-las serigrafias pintadas.

Com o desenvolvimento da minha pesquisa e as exposições que a coordenadora do atelier Bettina Gatti organizava, as serigrafias foram crescendo em valor pictórico.

Estudos e trajetos

Foi nesse período que iniciei o estudo de pós-graduação em pintura na UFES coordenado pela professora Almerinda Lopes.

O objetivo era escrever uma monografia sobre a serigrafia do artista Dionísio Del Santo. Contudo, em meio às atividades do curso e das exposições do Atelier, nasceu meu filho. O que mudou todos os projetos traçados.

Assim que pude, iniciei uma segunda pós-graduação, agora na área da educação em Artes Visuais, sob a coordenação da professora Izabel Helena de Souza. No qual desenvolvi uma monografia dentro do que o artista me pediu quando conversamos sobre o assunto… “Um texto com uma linguagem original, com as experiências presenciadas em seus dois cursos ministrados em Vitória, dos quais havia participado. Nele deveria constar que o artista nada escondia sobre a sua técnica do qual fora um pesquisador nato. E também falar do efeito ocorrido nas pessoas que fizeram o mesmo curso e do sucesso ocorrido com a descoberta da Matriz Espontânea, que acabou sendo levada para os EUA pelo professor Rafael Samú”.

E isto foi feito. Contudo acabei concluindo a monografia registrando os seus últimos momentos de vida e o que dai decorreu, aqui na cidade, que foi a abertura da exposição sem a presença do artista, a doação de algumas das obras expostas ao Museu e a homenagem feita a ele pelo Estado do Espirito Santo ao colocar o seu nome ao lado do Museu MAES.