Arquitetando pelo verde da cidade
Cada construção carrega uma história que acolhe o olhar. Que envolve sentimentos e estabelece relações com o passado e o futuro. Visitar o tempo é sair em busca da aventura do conhecimento que outras pessoas tiveram e vão deixando pistas para você.
São visitas rápidas, mas que deixam marcas pela beleza da paisagem, pelas construções erguidas há tanto tempo e ainda com suas paredes preservadas.
Na região rural da Itália, assim como no Espírito Santo, temos muitas casas de que se mantiveram em pé e foram transformadas em patrimônio histórico. Nelas, há uma memória de como foram construídas e dos materiais utilizados no local, isto é, mais de 500 anos atrás, onde as regiões dalém mar observaram com pedra de ardósia, enquanto aqui, as pessoas observaram com conchas trituradas e óleo de baleia. O uso desses materiais resultou em paredes mais resistentes à ação do tempo com janelas menores e portas imensas, na qual os primeiros raios de sol entravam anunciando a hora de ir ao campo trabalhar.
Quando pensamos nos descendentes destes trabalhadores que construíram as vilas e as cidades respeitando toda a sua tradição, seja nas colinas da bela terra natal ou no meio da mata, na terra que lhes foi prometida aqui no Espírito Santo, estou apaixonado pela história deste povo e pelo seu cuidado e zelo em demonstrar a sua alegria utilizando flores na decoração das ruas e sacadas. É muito bonito passar a pé por estes locais e ver os mini jardins criados pela diversidade de plantas nos vasos junto às paredes das suas moradias.
Enquanto algumas localidades continuaram guardando estas características coloniais, as evoluiu foram ocorrendo e pequenos comércios surgindo, fazendo desaparecer aquele primeiro aspecto rural que havia desde que foram criados. Após a República, no ano de 1889, surgiu uma mentalidade aqui no Brasil, de que o progresso eram avenidas mais largas para dar lugar a novas casas de comércio. Em muitas capitais brasileiras, casas e palacetes foram demolidos para dar lugar a avenidas, deixando para trás aquele aspecto campestre que os sobrados traziam com flores nas janelas. O tempo passou e muitos foram buscar trabalho nas fábricas. Era necessário que as fachadas mostrassem o progresso em sua arquitetura com linhas retas e cores sóbrias espalhadas pelos centros comerciais. Assim surgiu o estilo eclético: uma harmonia entre o renascimento e o barroco.
Nestes locais os jardins foram transformados em praças para os passeios de fins de semana e feriados. Neles havia o Coreto, uma pequena construção, para apresentações culturais ou discursos inflamados. A convivência com o promissor progresso e seus primeiros eletrônicos invadem as casas de alvenaria que ficavam cada vez menores ou geminadas e com parcelas de dívida de empréstimo bancário difíceis de serem pagas. Ia longe a ideia do contato direto com a natureza, que não fosse o pé no chão da criançada correndo nos campinhos de futebol.
O tempo passou e hoje, cada vez mais, como um fênix das cinzas na memória, vem a necessidade de visitarmos locais onde suas moradias nos fazem reconhecer um pouco da nossa história familiar, identificando o momento em que a natureza invade as casas de nossas nonas na infância e que de alguma forma ficou perdida no passado.
Por isso, é encantador saber que foi um casal de arquitetos ítalo-brasileiros que iniciou este reencontro da arquitetura com a natureza aqui no país. Eles chegaram no final dos anos quarenta. Fomos convidados a desenvolverem projetos de prédios públicos seguindo o novo momento de vida urbana daquela época. O exemplo melhor deste trabalho realizado, principalmente por Lina Bo Bardi, é o lar do casal, hoje museu, onde as quatro fachadas realizadas para a natureza acompanham o movimento do sol e aproveitam o frescor dos ventos através dos grandes panos de vidros. A casa foi construída com estruturas em aço em um terreno respeitando a topografia e aplicando tanto o pilotis como os muros de concreto diretamente sobre o terreno. No centro da casa foi criado um pátio típico da arquitetura moderna para trazer conforto ambiental e receber os amigos.
Visitar o tempo é sair em busca da aventura do conhecimento que outras pessoas tiveram e vão deixando pistas para você. Cada construção carrega uma história que acolhe o olhar. Que envolve sentimentos e estabelece relações com o passado e o futuro.
Faz-se necessário ir arquitetando o verde. Qual é a sua história?