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Crônicas da Natureza

· 3min

Crônicas da Natureza

Escrevi o texto “Meu Pé de Ipê Rosa” há alguns anos. Ele traz um tom de saudade de uma paisagem que via da janela do sobrado onde morava quando criança, no morro da antena da TV. Era uma vista muito bonita, tinha o pôr do sol sobre o Morro da Fonte Grande, uma parte do Parque Moscoso, uma parte dos guindastes do Porto de Vitória que aparecia entre os espigões que já tinham sido construídos na cidade (sinônimo da modernidade do início do século XX), algumas casas e as torres da antiga Rádio Capixaba na parte da cidade alta , contudo quando ia chegando a primavera, eu simplesmente ficava observando a copa de um ipê rosa que havia em um terreno bem próximo de casa.

Meu Pé de Ipê Rosa

Coisa bonita é flor! É perfeita, uma obra de arte ao alcance dos nossos sentidos. Imagine ver pela sua janela, crescer um ipê rosa, forte, saudável e formoso durante muitas primaveras, depois ir se transformando em uma árvore repleta de flores com vários buquês e pássaros sobrevoando se misturando à vida do lugar e tudo a sua frente… é maravilhoso!.

Chegar à janela e vê-lo crescer assim como o colonhão a sua volta, fez parte do meu cotidiano, enquanto observava o entardecer chegar sobre a cidade de Vitória. O Ipê ficava em um terreno cercado por um muro bem alto no início do Morro da Torre da TV, e era repleto de taiobas, colonhão e pedreiras onde os meninos soltavam raias até a tarde acabar. Quando o dono do terreno mandava roçar, as crianças pulavam o muro junto com os cachorros para brincar em uma quadra de esportes que havia por perto. Não ficava devendo nada às histórias do livro do Menino Maluquinho, pois era sempre uma grande algazarra.

Passado o tempo, fui morar em outro lugar e quando voltei para visitar meus pais corri à janela para ver ipê e a linda paisagem. Surpresa, percebi em seus galhos poucas flores apesar de estarmos na primavera e a sua volta, muita coisa queimada. Soube que o homem contratado naquele ano, para o corte do colonhão, havia lançado mão de fogo e produtos químicos e não usara a enxada para capina. Tudo queimou. Queimou a terra, as taiobas, os ratos e cobras que não fugiram, chamuscou as folhas de uma pequena mangueira e do mamoeiro que já dava flor. Foi de fazer dó, o ipê secou e o colonhão continuou teimando em crescer.

Naquele momento não tínhamos uma relação de conservação da natureza como temos agora. Fazer o roçado e atear fogo era a cultura de muitos que possuíam grandes terrenos e precisavam mantê-lo limpo. Nas ruas da cidade havia muitas árvores de Oiti plantadas que permanecem até hoje com suas minúsculas flores. E nos jardins públicos tínhamos flores de diversas cores formando lindos mosaicos.

Bem, para terminar esta crônica se hoje passearmos pelo nosso estado, vamos encontrar alguns ipês roxos no meio do que restou da Mata Atlântica. Enquanto na cidade de Vitória, temos muitas árvores e arbustos pocando em lindas flores, entre elas os ipês com flores cor de rosa forte e outros com flores de rosa bebê, e de forma tímida encontramos um ou outro ipê amarelo. Agora, se você que leu este texto encontrar um ipê branco, por aqui venha nos contar.